sexta-feira, 21 de abril de 2017

Estatística Espacial na Avaliação Imobiliária


A Estatística e Análise Espacial incorpora cada vez mais os Sistemas de Informação Geográfica, incluindo novos princípios e procedimentos de análise espacial, e existe o consenso na comunidade científica de que alguns processos espaciais, principalmente aqueles observados no ambiente urbano das grandes cidades, apresentam indexação no espaço e trazem como característica comum a continuidade. Isto significa dizer que esses valores variam de forma gradual numa determinada vizinhança ou região de influência.

 A associação de procedimentos de estatísticas espaciais aos sistemas SIG é importante porque permite que novos modelos inferenciais possam ser utilizados, incluindo uma informação importante: a correlação espacial.

Para que se possa estimar a correlação espacial, o estudo da geoestatística e seus conceitos básicos são de extrema importância e envolve a análise e inferência de fenómeno espacial e/ou temporal, tal como os preços de imóveis no mercado imobiliário.

A geoestatística teve a sua origem na área de mineração (Krige, 1951) e actualmente está associada com uma classe de técnicas usada para analisar e inferir valores de uma variável regionalizada. Estes valores, nestes estudos representados pelos preços dos imóveis, o consumo habitacional e a procura por habitação, estão implicitamente correlacionados uns com os outros, e o estudo de tal correlação é denominada de análise estrutural ou modelagem do variograma. A construção do variograma permite realizar a análise estrutural e inferências em localizações não amostradas, que são realizadas usando "Krigagem" ou a regressão espacial com a matriz de espacialidade.

Resumidamente, os passos num estudo de mercado imobiliário empregando técnicas geoestatísticas incluem a análise exploratória dos dados, a análise estrutural (cálculo e modelagem do variograma) e a realização de inferências (Krigagem ou Regressão Espacial).
A conceituação das técnicas de geoestatística está fundamentada na Teoria das Variáveis Regionalizadas, desenvolvida por Matheron (1963, 1971). A variável regionalizada é uma variável distribuída no espaço (ou tempo), como o preço dos imóveis no mercado imobiliário. As estimativas podem ser realizadas através de uma função aleatória (ou processo aleatório, ou processo estocástico). Esta teoria consolida o alicerce da geoestatística.
No trabalho apresentado por Anselin (1998) é demonstrado que existem dois tipos de efeitos que podem ser encontrados nos dados distribuídos espacialmente: o efeito causado pela heterogeneidade espacial e pela autocorrelação ou dependência espacial. O primeiro diz respeito à instabilidade dos parâmetros em relação à macro-região em que se situam os dados e, na ausência de dependência espacial, podem ser tratados pela metodologia tradicional; o segundo efeito diz respeito a uma interacção espacial entre os dados colectados e distribuídos espacialmente e que pode afectar a componente do erro aleatório, a variável dependente em estudos ou ambos.

Neste caso, a econometria espacial é adequada para realizar estimativas seguras dos parâmetros do modelo. Os efeitos de autocorrelação espacial no termo erro devem ser tratados pelos Modelos de Erros Espaciais, através da inclusão e um factor de defasagem espacial nos erros aleatórios do Modelo Clássico de Regressão.

Enquanto os efeitos de dependência entre os preços de cada imóvel e os preços dos imóveis vizinhos devem ser tratados pelos Modelos de Defasagem Espacial, onde se inclui uma variável dependente espacialmente defasada, como variável explicativa no modelo Modelo Clássico de Regressão.

Existem duas maneiras de se diagnosticar a presença de efeitos de dependência espacial numa amostra: pela análise gráfica do variograma ou utilizando-se testes estatísticos específicos como os testes de Moran I e os testes LM Robusto (erro) e LM Robusto (defasagem). No primeiro caso, a inferência espacial é realizada pelo processo denominado de Krigagem (Método de estimação, por interpolação, que considera a distância entre os dados distribuídos espacialmente, e no segundo caso, a modelagem espacial é realizada conforme a metodologia desenvolvida por Anselin (1988).

Para diagnosticar a presença de efeitos de dependência espacial, bem como introduzir estes efeitos no modelo de regressão linear, pela metodologia desenvolvida por Anselin, é necessário definir, previamente, uma matriz de pesos espaciais, conhecida como W. A construção desta matriz requer cuidados especiais. A abordagem mais simples é feita com a construção de uma matriz simétrica W em que cada elemento wij, é igual a 1(um) se i e j são vizinhos e igual a zero no caso contrário. Por convenção, os elementos diagonais são iguais a zero, ou seja, wii = 0. Uma segunda abordagem leva em consideração a importância dos vizinhos através de uma ponderação correspondente ao inverso da distância ou ao inverso do quadrado da distância entre eles. Normalmente, esta distância é calculada com base nas coordenadas geográficas dos imóveis que compõe a amostra, medidas em UTM. Cuidado especial deve ser dado quando existirem, na amostra de bens do mercado imobiliário, imóveis localizados num mesmo edifício. Nesta circunstância, a distância calculada utilizando as coordenadas geográficas será igual a zero, o que contradiz a lógica de mercado. Apartamentos situados num mesmo edifício possuem uma alta correlação espacial e a distância entre estes imóveis deve ser medida na vertical.

Em geral, a matriz W é padronizada por linha, onde cada elemento de W, representado por Wsij, é obtido dividindo-se Wij pela soma dos elementos da linha i a que pertence.

Nesta matriz, os elementos das linhas somam 1. Este procedimento, além de facilitar a interpretação dos pesos, como uma média ponderada dos valores dos vizinhos, assegura a compatibilidade entre os modelos (Anselin e Bera, 1998). O argumento principal a favor do uso de uma matriz de peso espacial é que esta associa uma variável em certo ponto do espaço (preço dos imóveis para o mercado de habitação) às observações da mesma variável noutros lugares do espaço. Nos estudos do mercado imobiliário é utilizada a notação W para a matriz de pesos espaciais ponderada por linha, calculada com base no inverso da distância entre os imóveis, para os modelos de preços hedónicos.

Os principais testes utilizados para detectar a autocorrelação espacial são Moran I, LM Robusto (erro) e LM Robusto (defasagem). O teste de Moran I é o mais usado nos estudos de dados de corte transversal de unidades geográficas. O problema deste teste é que ele não identifica o tipo de efeito (erro ou defasagem espacial). Por isso, serão utilizados testes mais específicos: o LM (erro) Robusto, para detectar efeitos de autocorrelação espacial no termo de erro; e o LM (defasagem) Robusto, para verificar a presença de efeitos de defasagem espacial na variável dependente. É importante frisar que a validade destes testes exige a aceitação das hipóteses de normalidade e homocedasticidade dos resíduos de MQQ – Método dos Mínimos Quadrados, obtidos pelo modelo de regressão linear.

A autocorrelação espacial no termo de erro está relacionada a erros de medida ocasionados pelas divisões artificiais das unidades geográficas, como os limites estabelecidos para os bairros ou regiões consideradas homogéneas de uma cidade, que não necessariamente coincidem com a realidade estudada. Isto é, na prática, o consumidor não tem o conhecimento exacto dos limites que dividem os bairros ou regiões. No mercado habitacional há uma tendência de efeito de transbordamento de um bairro de maior importância sobre os seus vizinhos. Outro factor que pode gerar a autocorrelação espacial nos erros é a omissão de variáveis de localização relevantes, nomeadamente as variáveis de microlocalização. Para tratar adequadamente este tipo de efeito espacial nos dados, será necessário considerar o processo espacial auto-regressivo no termo de erro. Quando os erros são autocorrelacionados espacialmente, os parâmetros estimados pelo modelo de regressão linear são não eficientes, isto é, os desvios-padrões que se encontram associados a eles são tendenciosos. Assim, os testes de hipóteses e os intervalos de confiança construídos não são confiáveis nem válidos e os resultados obtidos a partir deles são enganosos.

O efeito de defasagem espacial é ocasionado pela dependência espacial criada como consequência da interacção espacial entre os preços dos imóveis, conhecido como “efeito de vizinhança” (Dantas, 2001). Quando um comprador e um vendedor realizam a transacção de um imóvel, eles não somente levam em consideração as suas características estruturais e locacionais, mas também são influenciados pelos preços dos imóveis vizinhos. Neste caso, esta influência é medida pela inclusão de uma variável adicional no modelo dada por W × Y, sendo W a matriz de pesos espaciais e Y o vector de preços dos imóveis, que é a variável dependente espacialmente defasada (Anselin, 1998).
Cada elemento WYi, do vector WY é formado por uma ponderação dos preços dos imóveis vizinhos. Esta variável serve também para captar os efeitos de dependência espacial não considerados explicitamente nas variáveis locacionais comummente utilizadas, como questões ligadas à segurança, saúde e educação (Dantas, 2001). A introdução do termo de defasagem espacial, como variável explicativa, serve como “proxy” para as variáveis independentes omitidas que estão correlacionadas com as características locacionais (Pace, Barry e Sirmams, 1998).

Tendo em vista que a variável WY é aleatória, a estimação por MQO não é adequada, porque viola um dos pressupostos básicos do Modelo Clássico de Regressão Linear: as variáveis não devem conter nenhuma perturbação aleatória.

Uma maneira de escolher o modelo a adoptar – o Modelo de Erro espacial ou o Modelo de Defasagem Espacial – pode ser feita pela comparação do valor absoluto das estatísticas LM Robusto para o erro e defasagem. Assim, quanto maior for o valor encontrado na estatística de teste, maior será o efeito espacial correspondente a esta estatística, conforme argumento de Anselin e Rey (1991).


sábado, 8 de abril de 2017

Modelos contínuos

 Os modelos contínuos partem do princípio de que o valor dos imóveis ou o valor da sua localização adoptam uma forma contínua de variação. Esta continuidade surge do efeito da distância entre as amostras. Este fenómeno permite utilizar a distância entre amostras como uma informação útil para a modelagem do valor da localização. Esta forma de variação determina que o valor da localização tenha a forma de uma superfície que pode ser modelada.

Existem dois tipos de modelagem do valor da localização como superfície contínua: as superfícies de tendência e a krigagem.

Uma superfície de tendência é a superfície gerada pela expressão polinomial das coordenadas geográficas dos imóveis. Geralmente, trabalha-se com um grau de polinómio baixo, de quarta ou quinta ordem. As superfícies de tendência são consideradas apropriadas quando o objectivo é a modelagem espacial dos fenómenos de grande escala, mostrando-se menos adequada para a modelagem de fenómenos espaciais de pequena escala (Michael, 2004).

As principais limitações das superfícies de tendência são as seguintes:

– Não corrigem os efeitos de autocorrelação espacial nos resíduos;
– Apresentam problemas de extrapolação nas bordas da área de estudo;
– Podem gerar multicolinearidade nas variáveis a medida que aumenta o grau do polinómio;
– A superfície polinomial não modela adequadamente o gradiente de variação do valor, mantendo assim autocorrelação espacial nos resíduos;
– Na medida que aumenta o grau do polinómio de tendência usado o tamanho da amostra também deve aumentar substancialmente.

A modelagem por krigagem dos resíduos de uma regressão com as variáveis construtivas é um método que pode ser utilizado para uma amostra de imóveis homogéneos (Dubin, 1992; Chica Olmo, 1994; e Cano Guervós, 1999, entre outros). O método apresenta as seguintes limitações:

– Como modelo aditivo, não considera a possível interacção entre variáveis construtivas e de localização.
– A tentativa de definir um valor da localização a partir deste modelo aditivo esbarra na estimação da constante do modelo, pois a constante da regressão responde ao mesmo tempo às características construtivas e de localização. As técnicas propostas até ao momento para separar essa constante nas duas partes correspondentes e assim definir o valor da localização e o valor da construção não têm sido satisfatórias.
– A estimação exacta da krigagem nos pontos da malha (krigagem pontual) introduz o erro dos dados na modelagem da superfície.
– O uso do método residual não considera a existência de autocorrelação espacial nos resíduos da regressão das variáveis construtivas, a diferença da regressão espacial, mantendo assim os erros de estimação dos parâmetros.

Em resumo, o valor de uma localização é influenciado pela proximidade na sua vizinhança de uma série de serviços urbanos, factores naturais e socioeconómicos (presença de belezas naturais, investimentos públicos, centros comerciais, centros culturais como escolas, universidades, igrejas e teatros), factores de segurança social e criminalidade, factores de qualidade e poluição ambiental, qualidade do transporte, características do trânsito de veiculos, qualidade construtiva dos imóveis na região, entre outros.

Pode dizer-se que todas as características urbanas e sociais, naturais e económicas do espaço urbano afectam o valor dos imóveis localizados nas suas vizinhanças, existindo um alto grau de inter-relação entre todos os factos urbanos e entre o valor dos imóveis entre si. Devido ao dinamismo urbano provocado pela construção de novos empreendimentos e investimentos públicos e privados, o valor da localização urbana encontra-se em permanente mudança e constitui a parte do valor dos imóveis que tem maior grau de dinamismo: o investimento urbano afecta o valor das localizações próximas a ele.

Considerada desta forma, a definição da localização e do seu valor pode deduzir-se que o valor da localização varia de forma permanente e continua em todo o solo urbano, podendo existir regiões onde esta variação tem menor intensidade, em zonas onde não existem muitos pólos de valorização próximos e não há investimentos públicos importantes, enquanto outras regiões têm um gradiente de variação do valor acentuado, em especial na proximidade dos pólos de valorização mais importantes de uma região.

Outra característica fundamental do valor da localização, devido à distribuição heterogénea dos fenómenos urbanos, é a sua variação diferencial para cada direcção espacial, isto é, a variação do valor da localização tem uma característica basicamente anisotrópica.

domingo, 2 de abril de 2017

Modelagem da localização nos modelos hedónicos


 Na estimação do valor dos imóveis por modelos hedónicos, as variáveis de localização são classificadas geralmente em variáveis de distância (para as características de acessibilidade) e variáveis de zonas homogéneas (para as características qualitativas de vizinhança), entre outras possíveis, como descritas a seguir.

As variáveis de tipo distância são consideradas em relação aos possíveis centros de valorização de uma região. A principal dificuldade de usar este tipo de variáveis reside em que a influência real destes factores pode ter um efeito geográfico limitado. A partir de certa distância, o efeito de um pólo valorizador pode ser nulo ou imperceptível. Definir a priori esta distância máxima é impossível sem uma análise empírica dos dados de mercado. Outra dificuldade está em modelar a forma de variação funcional do valor com a distância. As formas funcionais mais utilizadas são as seguintes: diminuição linear com a distância, diminuição logarítmica, inversa da distância, inversa da distância ao quadrado. A escolha entre estas formas requer uma análise dos dados de mercado, porém, muitas vezes, modelos são adoptados de forma arbitrária pelo avaliador.

Estes factores podem introduzir erros no modelo de regressão e falta de significância estatística de variáveis importantes. Outra limitação de usar variáveis de tipo distância a pólos de valorização é a possível multicolinearidade de variáveis independentes, pois geralmente uma mesma região tende a concentrar a presença de vários pólos de atractividade, conformando-se centros e subcentros de valorização; as variáveis de tipo distância podem estar então correlacionadas, impedindo a sua utilização como variáveis independentes na regressão.

As variáveis de tipo vizinhança ou zona homogénea definem-se para regiões teoricamente homogéneas quanto às suas características qualitativas de localização. Elas podem ser definidas com base em informações sociais, económicas, ambientais, e existem propostas de utilizar os SIG para a sua análise e definição (Silva et al., 2004). As limitações que apresentam este tipo de variáveis são as seguintes: a definição objectiva dos limites destas zonas, geralmente baseada em sectores definidos para outros objectivos; a validade da hipótese de homogeneidade no interior destas regiões, pois esta hipótese representa uma simplificação que pode ser excessiva; mesmo dividindo em regiões pequenas, a pergunta que subsiste é se elas podem ser consideradas com um valor de localização constante em todos os seus pontos. Do ponto de vista da aplicação deste conceito, vários estudos realizados utilizando variáveis de vizinhanças em modelos hedónicos, com amostras de grande tamanho, têm mostrado resultados positivos, trabalhando com um grande número de sectores homogéneos como variáveis dicotómicas. O uso de variáveis dicotómicas permite avaliar a média de valorização de cada região ou vizinhança. A principal dificuldade para poder usar este tipo de modelagem consiste em que são necessárias amostras de grande tamanho; para trabalhar com zonas realmente homogéneas as amostras devem conter centenas ou milhares de dados; tamanho disponível em muitas cidades dos Estados Unidos de América onde este método é utilizado, mas de difícil aquisição noutras partes do mundo.

Também são utilizadas variáveis socioeconómicas como variáveis proxy do valor da localização: renda média das famílias ou per capita, nível de escolaridade, entre outras, são definidas para regiões consideradas homogéneas; este tipo de variável apresenta as mesmas limitações do que as variáveis de zonas homogéneas: definição do suporte espacial e homogeneidade real.


As variáveis de tipo zona fiscal são semelhantes às zonas homogéneas (vide CIMI), criam-se zonas fiscais com um valor venal teoricamente homogéneo. Estas variáveis têm os erros provenientes dos cadastros existentes, que podem estar desactualizados ou mal calculados, além de existir o problema de definição de limites arbitrários para estas zonas.

Finalmente, existem também variáveis construídas por Análise Factorial: Análise de Componentes Principais ou Análise de Correspondências, a partir de um conjunto de variáveis que representam características da vizinhança ou socioeconómicas. Estas variáveis apresentam o mesmo problema de definição do suporte de medição, além da disponibilidade real de informação completa e abrangente. Entre as vantagens destas variáveis está a redução da dimensão localização a um número pequeno de factores, permitindo a sua utilização em modelos hedónicos para amostras de tamanho reduzido, dado que poucos factores possam expressar a informação contida numa grande quantidade de características de localização.

O problema do tamanho da amostra é um problema sério, inclusive onde existe disponibilidade para trabalhar com amostras de grande tamanho, pois acontece geralmente que alguns tipos de imóveis não sejam comercializados com tanta frequência. O caso mais comum é o caso de terrenos em áreas densamente urbanizadas. Geralmente, existem poucos terrenos livres, o que dificulta conseguir uma quantidade mínima de dados para poder modelar os efeitos de localização, por exemplo.

Segundo Chica Olmo (1994), os factores de localização afectam no mesmo sentido todos os imóveis de uma região, sejam terrenos ou construções, porém, o grau em que afectam o valor de cada tipo de imóvel pode ser diferente.

Peruzzo Trivelloni (1998), analisando uma amostra de mercado de apartamentos, comprova que os mesmos factores de localização, analisados para imóveis de características diferentes, podem ser significativos na explicação do valor de todos eles mas afectar de forma diferente a cada tipo de imóvel.
No mesmo sentido, Gloudemans (2002), considerando imóveis construídos e terrenos, argumenta que as variáveis de localização afectam todos os imóveis de forma semelhante, mas que o efeito sobre um e outro tipo de imóveis poderia ser proporcionalmente diferente, sendo que esta diferença pode ser modelada por meio da análise dos dados de mercado.

Em resumo, as limitações dos modelos hedónicos para a modelagem dos factores de localização são os seguintes:

– A consideração individual de cada factor de localização como uma variável independente do modelo provoca a necessidade de uma grande quantidade de observações como amostra, que geralmente é difícil de encontrar na prática.

– Dificuldade para enumerar e considerar todos os factores de localização influenciantes.

– Dificuldade para considerar o gradiente de variação de cada efeito e o seu alcance em distância. Erros na consideração do gradiente ou do alcance provocam autocorrelação espacial nos resíduos.

– Factores que não conseguem ser modelados significativamente também provocam autocorrelação espacial nos resíduos.

– Factores de localização são variáveis parcialmente correlacionadas e por este motivo a sua inclusão simultânea nos modelos de regressão não é possível.

As dificuldades de incorporar nos modelos hedónicos todas as variáveis de localização influenciantes determinam que os resíduos do modelo possam apresentar autocorrelação espacial: os resíduos de imóveis próximos, por estarem afectados pelas mesmas características de localização, estarão correlacionados.

A autocorrelação espacial dos resíduos invalida uma das hipóteses básicas dos modelos de regressão, que é a de ter resíduos não correlacionados.

Dubin (1988) propôs uma metodologia diferente para o tratamento das variáveis de localização. Ela sugeriu usar como variáveis explicativas da regressão apenas as características construtivas dos imóveis. Assim, os efeitos das variáveis de localização estarão embutidos nos resíduos do modelo. Calculando a média ponderada destes resíduos pode ser estimado o efeito de vizinhança. Desta forma, o modelo de regressão teria as seguintes variáveis explicativas: por um lado, as tradicionais variáveis construtivas dos imóveis: por outro lado, um polinómio formado pelas coordenadas dos imóveis, para conseguir a estacionariedade dos resíduos, e finalmente um termo obtido por krigagem dos resíduos que representaria os efeitos de localização não medidos pelas outras variáveis.

Segundo Can (1998) e Anselin (2001), diversas técnicas de análise exploratória de dados, como os testes de Moran, a análise de semivariogramas ou correlogramas podem ser utilizadas para avaliar a existência de autocorrelação espacial.

Segundo Anselin (1998a), as técnicas de análise exploratória de dados espaciais consistem numa série de técnicas para descrever e visualizar distribuições espaciais, descobrir padrões de associação espacial, sugerir regimes espaciais diferenciados e outras formas de não estacionariedade, e identificar observações atípicas. A descrição de distribuições espaciais está sendo gradualmente integrada com técnicas de gráficos dinâmicos incluindo mapas como forma adicional de visualização dos dados espaciais, em adição a box-plots, diagramas de dispersão e outras técnicas comuns de análise exploratória de dados.

As técnicas de análise exploratória de dados espaciais podem ser classificadas por duas vias: na primeira, segundo sejam medidas baseadas na vizinhança ou medidas baseadas na distância; na segunda, em função do nível de abrangência e podem ser classificadas em medidas globais ou locais de autocorrelação.

No caso de medidas baseadas na vizinhança, a interacção espacial é visualizada para um conjunto determinado de vizinhos. A interacção global dos vizinhos sobre um imóvel é obtida a partir da definição arbitrária de uma forma particular de processo espacial. Este enfoque requer a formalização de uma estrutura de vizinhança para cada observação na forma de uma matriz de pesos espaciais.

O outro ponto de vista, baseado na distância, tipicamente adoptado na geoestatística, assume a interacção espacial como uma função suavizada da distância entre pares de observações. Uma medida indispensável para poder calcular esta interacção será, então, a medida da distância entre cada par de observações. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Acessibilidade e vizinhança

A localização de um imóvel é definida, na literatura de avaliação imobiliária, geralmente por duas características: acessibilidade e vizinhança.

Acessibilidade refere-se geralmente à facilidade de acesso ou a distância a pontos importantes da estrutura urbana. É a acessibilidade a pontos importantes, como centros comerciais, educacionais e vias de trânsito importantes.

Vizinhança refere-se à qualidade da vizinhança do imóvel. A qualidade da vizinhança é uma variável não observável directamente, que geralmente é medida por meio de variáveis socioeconómicas proxy como renda média da população ou nível educacional médio.

Segundo Dubin (1992), o principal factor determinante do valor dos imóveis é a sua localização. A qualidade da vizinhança do imóvel e as suas características de acessibilidade, componentes básicas da definição de localização, devem afectar directamente o preço dos imóveis. Porém, a evidência empírica obtida e mostrada nos resultados de grande parte dos estudos realizados, utilizando modelos hedónicos, mostra resultados contraditórios ou pouco conclusivos neste sentido, com poucos exemplos de coeficientes significativos nas variáveis ligadas à vizinhança e à acessibilidade, quando não resultados incoerentes no sinal esperado dos parâmetros correspondentes da regressão.

Segundo a mesma autora, a forma tradicionalmente utilizada nos estudos de modelos hedónicos para estimar a acessibilidade de um imóvel é incluir, como variável explicativa nos modelos, uma variável distância ao pólo de valorização principal da cidade para ser testada a sua significância como variável da regressão. Este procedimento acarreta implícita a hipótese de que a cidade é monocêntrica, ou seja, que existe somente um centro principal de valorização. Os modelos assim obtidos têm mostrado resultados contraditórios por causa da especificação dos modelos. As cidades são policêntricas ao invés de monocêntricas.

Estudos levando em consideração a natureza policêntrica das cidades têm obtido melhores resultados, encontrando-se evidência de que vários pólos secundários como escolas, universidades, centros de trabalho, centros comerciais, shoppings, vias de transporte principais, entre outros, influenciam directamente o valor dos imóveis próximos a eles. Esta possível influência deve ser testada medindo a distância dos imóveis a cada um deles, testando a sua significância como variável explicativa nos modelos hedónicos.

Por outro lado, a evidência empírica de resultados obtidos em relação aos possíveis efeitos da vizinhança no valor dos imóveis também é variada. Os estudos têm mostrado resultados contraditórios quanto ao sinal e à significância destes regressores nos modelos hedónicos.

Segundo Dubin (1988), um dos motivos para esta falta de resultados positivos encontra-se na dificuldade de medir objectivamente a variável qualidade da vizinhança. Considerando que ela não é uma variável directamente observável, não existe consenso sobre quais seriam as melhores variáveis proxy para representá-la.

Orford (1999) sublinha a importância de incluir as características locais da vizinhança, características naturais, paisagísticas, qualidade ambiental entre outras, nos modelos de regressão hedónicos. O autor propõe que a avaliação da influência de algumas características, tais como acesso a parques, escolas, universidades, assim como a influência de regiões não residenciais, pode ser realizada com o apoio de Sistemas de Informações Geográficas para a pesquisa exaustiva destes possíveis efeitos. Ele propõe também uma classificação de diferentes factores que influenciam na qualidade de uma vizinhança, classificando estes elementos em três níveis de abrangência ou generalidade: nível do imóvel, nível do logradouro e nível da vizinhança. Com o apoio de um SIG, propõe medir de forma automatizada as distâncias a vários possíveis pólos de valorização e construir desta forma factores de localização que seriam testados posteriormente no modelo de regressão.

terça-feira, 7 de março de 2017

Software de Avaliação de Imóveis

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sábado, 4 de março de 2017

Peritos avaliadores, a nomear pelas Câmaras Municipais.

Não está errado de todo!
A gestão urbanistica tem uma correlação forte com as mais valias imobiliárias e idealmente ambas as coisas devem estar integradas. A independência profissional e a capacidade de promover a equidade é que é será muito duvidosa. Vamos ver de que forma  a legislação/ regulamentação a sair o pretende assegurar. 

Diz a notícia, sic:
"A transferência da avaliação de imóveis para as autarquias, prevista na proposta de descentralização de competências do Governo, merece oposição da Associação Lisbonense de Proprietários, que receia um aumento da carga fiscal através do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI).

A Associação Lisbonense de Proprietários (ALP) “opõe-se à intenção de transferir as competências da Autoridade Tributária (AT) para as câmaras municipais em matéria de avaliação de imóveis para efeitos de IMI”, afirma esta organização, com mais de dez mil proprietários, em comunicado.

Para a ALP, é evidente que esta nova alteração ao código do Imposto Municipal sobre Imóveis, que visa acomodar a transferência de competências da AT para os órgãos municipais, se traduzirá num novo aumento da carga fiscal sobre o património imobiliário”, salienta a associação.
A organização receia um novo aumento fiscal, “depois de a cobrança de IMI já ter disparado duas vezes e meia entre 2002 e 2015, ou 41% em apenas cinco anos (dos 1.088 milhões de euros de 2010 para os 1.533 milhões em 2015)”, lê-se no comunicado.
A associação salienta que “o património habitacional tem sido o alvo preferencial de toda a política de saque fiscal do Governo e das forças políticas de esquerda que o sustentam”.
Além do aumento dos coeficientes de localização dos imóveis para efeitos de cálculo do IMI, o Governo “tentou taxar o sol e as vistas em sede do mesmo imposto”, mas como não conseguiu, perante a oposição da opinião pública, introduziu um imposto adicional ao IMI, do qual “isentou o comércio e o lóbi dos grandes grupos económicos”, denuncia a ALP.
A medida levou a que se tenha “triplicado para os proprietários urbanos particulares a taxa de 0,3% que tinha apresentado inicialmente na proposta de Orçamento [do Estado] para uma taxa adicional que pode variar entre os 0,7% e 1%.”, aponta a associação.
A falta de isenção das autoridades locais, que são as beneficiárias das receitas de IMI, é o primeiro atentado grosseiro deste diploma”, considera a associação, acrescentando que a medida, a concretizar-se, “vai produzir um conjunto de arbitrariedades e de regras e critérios distintos de concelho para concelho”.
A mesma entidade nota que “mais de 75% dos portugueses são proprietários da sua habitação própria permanente” e informa que “vai bater-se nas instituições próprias contra esta delegação de competências” para as autarquias.
A Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) também considerou esta sexta-feira, em comunicado, que “a descentralização de competências atualmente exercidas pela administração central, designadamente no que respeita à avaliação e reavaliação de património imobiliário para efeitos fiscais, é uma matéria sensível que carece de análise aprofundada”.
A transferência da avaliação e reavaliação de imóveis dos serviços de finanças para os municípios está prevista na proposta de lei do Governo de descentralização de competências para as autarquias, entregue na quarta-feira no parlamento.
A proposta de lei, se for aprovada, autoriza o Governo “a introduzir, no prazo de 180 dias, alterações no código do Imposto Municipal sobre Imóveis”.
As alterações a concretizar no prazo de seis meses, após a aprovação do diploma, vão no sentido “de transferir as competências em matéria de avaliação e reavaliação de imóveis dos serviços de finanças para os órgãos municipais, nomeadamente no que concerne à iniciativa para avaliação, designação de peritos avaliadores e decisão de reclamações”.
A cobrança do IMI manter-se-á na esfera do fisco, que continuará a transferir os montantes deste imposto para os municípios, que já definem o valor das taxas a aplicar aos imóveis.
O parlamento marcou para dia 16 a discussão na generalidade das propostas de descentralização do Governo e dos partidos, incluindo PSD, BE e PCP."




O Factor Localização

Localização e Valor da localização.

A localização de um imóvel é determinada pela sua delimitação espacial única no espaço urbano. Se considerado um sistema de coordenadas geográficas ou geodésicas que identifica cada ponto da superfície terrestre com um conjunto de valores de coordenadas correspondentes, a localização de um imóvel pode ser definida por meio das coordenadas que delimitam fisicamente o imóvel. Se considerarmos apenas a representação plana dos imóveis, ou seja, a sua projecção sobre uma superfície bidimensional, pode representar-se a localização do imóvel como o conjunto de pontos que delimitam o imóvel ou até como um único ponto situado dentro do lote ao qual pertence o imóvel, por meio de um par de coordenadas planas.

A localização de um imóvel define-se conceitualmente também, além das coordenadas no sistema definido, pela sua relação espacial ou interacção com toda a estrutura urbana próxima ao imóvel, ou seja, com a vizinhança. Além das suas coordenadas absolutas, as características da vizinhança e a relação e proximidade aos centros comerciais, culturais, económicos e de transporte fazem parte da definição e caracterização de uma localização.

O valor de uma localização pode ser definido como a parte do valor de um imóvel que depende apenas da sua localização, descontando do seu valor total os componentes devidos ao tipo e às características construtivas do imóvel.